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A fantástica Bab Bou Jeloud, ou Porta Azul da Medina de Fez
A fantástica Bab Bou Jeloud, ou Porta Azul da Medina de Fez

Fez, uma viagem no Tempo em Marrocos

A imponente Bab Bou Jeloud, ou Porta Azul da Medina de Fez, abre-se à nossa frente para além do barulho ensurdecedor das buzinadelas dos carros e motocicletas, do trânsito desenfreado onde se misturam pessoas, carroças, burros, automóveis, motas e bicicletas num movimento caótico, aparentemente sem quaisquer regras. Cá fora, o tempo é só um, o Presente. Mas assim que transpomos a Bab Bou Jeloud, inicia-se uma viagem no tempo, em direcção ao Passado. A gigantesca Fez el-Bali, assim se chama a Medina, ou cidade velha, de Fez, é a maior cidade medieval islâmica do mundo, para além de ser a mais antiga cidade imperial de Marrocos. E os seus mais de 150 000 habitantes não têm qualquer dúvida que a sua cidade continua a ser o coração espiritual e cultural de Marrocos, apesar da transferência de capital política para Rabat em 1912, pela mão dos franceses.


A entrada na Medina é um verdadeiro assalto a todos os nossos sentidos. Cores, vozes e sons que chegam de todos os lados, até a luz é diferente no interior de Fez el-Bali, filtrada pelas coberturas de caniços das ruas, entalada pelas curvas sinuosas do souk e dos bairros. E cheiros, muitos cheiros… aromas misturados, intensos, doces e amargos, o cheiro a menta fresca, a lixo, a cabedal, a madeiras velhas, a fritos. O cheiro intenso de Fez, cidade medieval, do Passado para o Presente. Depois de passar a Porta Azul, deixamos o caos do trânsito e do barulho dos escapes para trás, e entramos na maior área urbana do mundo livre de tráfico motorizado. Apesar da principal porta de entrada na Medina ser azul, a cor de Fez el Bali é o verde, cor do Islão, repetida vezes em conta nas suas portas e azulejos (zelligues), nos seus fabulosos trabalhos em muqarna (estuque esculpido).


Mergulhamos no souk de corpo e alma. Tudo se vende aqui, roupa, bijuteria, ourivesaria, lenços, panos, electrodomésticos, material de informática, toda a quinquelharia que se possa imaginar, e até lingerie ousada pendurada em elegantes silhuetas de plástico. As mulheres não podem usar menos que uma djelaba até aos pés, mas as manequins das lojas podem muito menos, o que não deixa de ser curioso. O comércio é o sangue vital da Medina, mas não menos importantes são os artesãos. Por todo o lado, as minúsculas lojas convivem paredes meias com oficinas abertas para a rua onde quase tudo se produz. Rapazes sentados em pequenos bancos talham a rocha, criando desenhos e arabescos na pedra, à porta das cantonarias, outros fazem os mesmos arabescos mas sobre o bronze, costureiros e alfaiates espreitam a rua por entre agulhas e metros de tecidos de todas as cores e texturas! Passamos pelo quarteirão dos talhos, protegido do forte sol das montanhas marroquinas por esteiras de palha e caniços, estendidas sobre as ruas. É impressionante a quantidade de cabeças de borrego, pernas de cabrito, galinhas e perus depenados e pendurados por todo o lado. Aqui, as máquinas fotográficas são particularmente mal recebidas, não chegámos a perceber porquê. Continuamos pelo meio do turbilhão de pessoas que parece percorrer constantemente as ruelas da Medina. Toda a gente tem sempre algum sítio onde ir ou algo a fazer algures, nesta cidade virada para dentro das suas muralhas e que quase se basta a si própria. Muitas serão as pessoas, principalmente mulheres, que viveram toda a sua vida na Medina sem jamais terem saído para fora das suas velhas muralhas. Todos os bairros da cidade velha têm a funcionar pelo menos uma padaria, onde o pão é vendido cozido ou as mulheres podem levar o seu próprio pão a cozer, uma escola elementar para as crianças, uma mesquita, e um hammam (os banhos públicos, habituais nos países muçulmanos) para os homens e outro para as mulheres. É um sistema público instalado na cidade desde sempre, e que sempre pretendeu assegurar aos seus habitantes as condições de vida fundamentais numa grande metrópole. É importante não esquecer que depois da sua fundação no século VIII, aquela que começou por ser uma pequena cidade Berbere no interior do Norte de África, se transformou rapidamente na capital de um império que se estendia desde a Península Ibérica até ao Senegal. A chegada de milhares de muçulmanos vindos do Al-Andalus (actual sul da Península Ibérica) e de outros tantos vindos de Kairouan (actual Tunísia), foi o grande impulso para este crescimento e moldou definitivamente o carácter da cidade. À época, a criação daquelas infraestruturas básicas constituiu uma medida de modernidade sem igual, com o objectivo de assegurar uma qualidade de vida superior e mais cosmopolita à população, conceito ainda quase desconhecido na Europa daquele tempo, por exemplo. E como tudo o resto em Fez el-Bali, pouco mudou desde esse tempo. A inovação medieval de outrora foi transportada intacta para os dias de hoje, só que hoje os padrões de modernidade são já diferentes. Uma visita às caldeiras de um hammam faz-nos esbarrar de frente com este tipo de paradoxo em Fez el-Bali. Os banhos públicos gratuitos foram uma forma de assegurar a higiene regular a todos os cidadãos, independentemente da sua condição social ou riqueza. No entanto, o modo de funcionamento deste sistema, bastante democrático até, continua a ser exactamente o mesmo desde a época medieval: um homem, de cócoras durante horas a fio à boca da caldeira subterrânea, alimenta continuamente e com a sua própria mão o fogo que aquece a água dos banhos, à conta de punhados de tecidos, de novelos de lã e algodão, de restos de jornais, e todos os tipos de sobras produzidos diariamente pela cidade. Seguimos a Talaa Kebira, ou ‘grande encosta’, em direcção ao coração da Medina. Apesar de estarmos em pleno período do Ramadão, em qualquer canto, em qualquer pedaço de chão das estreitíssimas e sinuosas vielas da cidade, o espaço é ocupado por dezenas de pequenos vendedores de fruta, de ervas, de hortaliças, de frutos secos, de lentilhas, de animais vivos ou mortos. O cheiro a coentros e a menta fresca é inebriante, vendidos em molhes gigantes que transbordam de verde, a contrastar com os edifícios velhos já sem cor da Medina. A menta é também usada para forrar as tábuas e bancadas de madeira onde aves depenadas e pedaços de outros animais são expostos e vendidos. É o modo de refrigeração possível, numa cidade em que muitas pessoas ainda não têm sequer água canalizada e são obrigadas a ir buscá-la diariamente à fonte mais próxima das suas casas. Tudo se vende e tudo se compra, mas nada pode ser consumido antes do pôr-do-sol, altura do dia em que termina o jejum imposto pelo Ramadão.


Por entre o frenesim da rua, surge uma porta alta em madeira trabalhada que dá entrada noutra dimensão. Atravessamo-la e entramos no enorme pátio da Madarsa (nome árabe para as Universidades Teológicas Islâmicas) Bou Inania, onde somos sugados por um silêncio e uma paz que contrastam brutalmente com as ruas sempre em ebulição que ficam para lá deste muro. É um microcosmo de sossego dentro da Medina. Ao centro, uma grande fonte circular onde os fiéis fazem as suas abluções (ritual de lavagem da cara, mãos e pés) antes da oração sagrada. Ao contrário de muitas outras madarsas, que apenas têm uma modesta sala de orações e um mihrab (nicho na parede que indica aos fiéis a direcção de Meca), a Bou Inania inclui uma bela mesquita e um minarete que pode ser visto ao longe na cidade. A toda a volta do pátio, as antigas paredes da madarsa, com mais de 600 anos, revelam-nos o mais maravilhoso trabalho dos artesãos de Fez el-Bali. As composições geométricas, abstractas e florais dos azulejos brilham sob a luz do sol em tons verdes, azuis e negros, coroadas por versículos do Alcorão. Nos magníficos tectos em madeira das várias salas que rodeiam o pátio, os mesmos motivos entrelaçam-se para deslumbre do nosso olhar. Sentimo-nos hipnotizados pela beleza e mestria de tal trabalho, o qual foi lançado na pedra e na madeira por rapazes que, há 600 anos, se sentavam à porta das oficinas da Medina a esculpir a suas trepadeiras e os seus versículos sagrados, tal como os rapazes de hoje continuam a fazer. Seguimos para a praça an-Nejjarine, bem no centro da Medina, e lugar de uma das mais belas fontes da cidade, a qual se encontra coberta por minúsculos azulejos multicolores. É também junto a esta praça que nos deparamos com o mais original souk de Fez. Dezenas de artesãos dão forma a cintilantes e sumptuosos ‘tronos de noiva’, utilizados para transportar as noivas nas suas cerimónias de casamento, e que se assemelham a verdadeiros castelos da Bela Adormecida em versão miniatura! Perto, mas bem mais discreto, o Museu Nejjarine da Arte em Madeira Esculpida vale uma visita principalmente pelo edifício onde se encontra instalado, um antigo funduq completamente restaurado. Na época medieval, os funduqs eram uma espécie de albergues destinados aos comerciantes que vinham de longe fazer negócios na Medina. No piso térreo eram armazenadas e trocadas as mercadorias, para além de se estabelecerem contactos importantes, e o piso superior servia para alojamento dos comerciantes. Tal como nos muitos outros funduqs espalhados por toda a cidade, os armazéns e os quartos dispõem-se à volta dum pátio central, e a principal atracção destes edifícios são as varandas do piso superior, em madeira belissimamente trabalhada. Perto de an-Nejjarine, erguem-se as enormes paredes do edifício mais importante de Fez. A Madarsa Kairouan é a mais antiga universidade do mundo ainda em funcionamento, e a sua mesquita tem capacidade para albergar cerca de 20 000 pessoas em oração. Fundada em 859 AD, rapidamente se transformou no mais importante centro de conhecimento e cultura num território que se espalhava desde a Península Ibérica e por todo o Norte de África, e numa altura em que as Universidades de Cambridge ou de Oxford, por exemplo, não passavam ainda de miragens no horizonte! O seu nome tem a ver com a sua origem, tendo sido construída por refugiados da actual Tunísia. O acesso é interdito aos não muçulmanos, de maneira que apenas podemos ter noção da sua dimensão e grandiosidade ao percorrermos os cerca de 12 quilómetros de muro que circundam o edifício a toda a volta.


Do sagrado para o profano, as intrincadas ruas e passagens da Medina conduzem-nos ao local mais emblemático, e talvez o mais impressionante, desta cidade resgatada ao passado. Subimos as escadas íngremes dum edifício igual aos outros, mas à porta alguém entrega-nos um ramo de menta fresca e faz-nos sinal para que o mantenhamos bem perto do nariz. Ao chegarmos ao terraço do 4º andar, o cenário que se avista em baixo, e o forte odor a peles e cabedais, faz-nos perceber o porquê da menta. As tinturarias de Fez são famosas desde há vários séculos por produzirem algum do melhor cabedal do mundo. E também por serem um dos trabalhos mais duros de Fez el-Bali. Os tanques circulares onde o cabedal é tratado e tingido a céu aberto, estendem-se por uma área enorme, entalada no meio dos bairros da Medina. Assemelham-se a uma gigantesca colmeia, onde dezenas de homens passam os seus dias imersos até à cintura na água tingida dos tanques, e à força de pernas mergulham as peles vezes em conta até elas atingirem a cor pretendida. É uma espécie de ‘pisar a uva’, só que aqui não se faz vinho, fazem-se magníficos cabedais de todas a cores. Quase todos os corantes são de origem natural: índigo para o azul, açafrão para o amarelo, excrementos de pombo para o branco… E um ‘ingrediente’ muito especial, à base de urina de vaca misturada com cinza, que serve para ajudar a fixar os pigmentos. Não é assim uma surpresa que muitos destes homens acabem por sofrer vários problemas de saúde, e que este continue a ser fundamentalmente um trabalho transmitido de pais para filhos. Para trabalhar nas tinturarias, é preciso nascer-se numa família de tintureiros. Depois de passar pelas mãos e pelos pés destes homens, as peles são estendidas ao sol para secarem, e empilhadas no fim. As mulas vão chegando ao recinto, carregam peles virgens para serem tingidas, e na volta levam os cabedais já prontos a serem transformados em casacos, sapatos, poufs, malas e mochilas. O comércio das peles que gira em torno deste espaço incrível das tinturarias é um ciclo de produção medieval, do início ao fim, tal como acontece com tantas outras coisas em Fez el-Bali.


As mulas não transportam apenas cabedais, mas alimentos, tecidos, bilhas de gás, electrodomésticos... São elas o único 'tráfico' verdadeiro no interior da Medina! E é com elas que temos de partilhar as ruelas da cidade, tal como acontece desde há séculos, quando o seu condutor grita para abrir caminho entre a multidão, ‘balak! balak!’ (cuidado!). Nesse momento, todos temos de encontrar uma ombreira ou um pedaço de parede ao qual nos encostar, para deixar passar as mulas carregadas com o seu fardo... E ver desfilar o Passado pelas ruas de Fez el-Bali.

Comentários

Isso é tudo muito bonito mas se forem apenas com guias autorizados. Não vão sozinhos/casal porque pode ser uma experiência aterradora, pois são constantemente abordados e incomodados pelos locais que de todas as maneiras tentam extorquir dinheiro aos turistas. É intimidante. Cuidado com os guias falsos...

Susana em 2010-09-11 17:36:55

Gracias

José Vicente em 2010-06-17 18:17:52

Gostei muito, do texto , do detalhe da descrição. Consegui por momentos imaginar-me nesses corredores e nesses odores. Será uma viagem a fazer concerteza! Obrigada pela ideia

Carla Prudêncio em 2009-11-06 12:38:24

Um local fascinante só podia gerar uma crónica apaixonada. para além da paixão posta nas palavras o rigor da descrição demonstra muita pesquisa e interesse. Parabéns!

Ana Palmeiro em 2009-11-02 11:32:45

Francisca

Geóloga


Upload: 2009-11-01 17:47:33

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