O dia até que não começou nada bem. Uma troca com a minha inscrição que só foi detectada à partida e já no interior do Aguagua (autocarro), quando se chamou pelo único Carlos inscrito e a mão que se ergueu no ar não foi de certeza a minha! A confusão agravou-se, quando o Aguagua começou a andar, indiferente ao burburinho já instalado, atravessando o imenso jardim tropical que rodeava todo o hotel, enquanto este Carlos tentava descobrir porque tinha sido riscado da lista. “– Porque houve una indicacion de que ustê non ha pago la escursion”, respondeu-me uma alemã (Helga) num castelhano distorcido. Mas paguei sim senhor, atempadamente e com os recibos para comprovar! Stop ao Aguagua. Volta para trás e vamos buscar o equipamento de mergulho para o outro Carlos (o de Madrid). É que feitas as contas, ele é que estava incrito mas quem tinha o equipamento de mergulho era eu. Enfim, confusões, e não foi a única, o que vem provar que este tipo de empresas que exploram estas actividades, com o objectivo principal de sacar o máximo de dólares possível aos turistas (abençoados cartões de crédito porque quando não existem dólares, pode-se sempre creditar), constituídas e geridas por alemães, belgas, suíços e ingleses e outras gentes (dos considerados mais organizados do planeta) tem também muitas falhas.
Devo acrescentar que a rapidez da resolução do meu problema esteve directamente relacionada com a existência de um Miguel (Um português de Lisboa) que trabalha naquele Dive Center como instrutor de mergulho. Após uma passagem de 4 anos pelo Mar Vermelho e Inglaterra trabalha agora na Dominicana, enquanto aguarda oportunidade de ir, também como instrutor, para o México. Obrigado Miguel e boas aventuras.
Seguiu-se aproximadamente 1 hora e 50 minutos para fazer cerca de 90 km, cruzando uma paisagem que se vai tornando cada vez menos irregular, mais domesticada, podendo-se observar ao longo destes kms, enquanto nos dirigimos para Sul, como progressivamente os cultivos, principalmente o da cana-de-açúcar, vão substituindo a vegetação (e nalguns pontos, floresta) densa e tropical. Simultaneamente as planícies vão conquistando os espaços e vão aparecendo algumas cidades e vilas. Passamos primeiro por “La Otra Banda” uma pequena vila fundada por imigrantes das Canárias e agora dedicada quase exclusivamente ao turismo. Com a sua rua principal repleta de comércio onde não há casa que não venda qualquer coisa e onde a mais humilde habitação familiar se transforma durante o dia num ponto de venda distribuindo na sua banca pinturas típicas, artesanato, rum, charutos, pedras ou conchas da ilha, La Otra Banda tem contudo a linha típica das vilas Dominicanas mantendo todas as suas casas impecavelmente pintadas predominantemente de azul, verde ou outras cores pastel, com as suas grades, os seus “talhos” com a carne e os enchidos pendurados na rua em enormes paus, vergando-os com o peso até quase tocar o chão, suspensos ao pó, ao fumo e poluição, à humidade tropical e muita, muitas moscas. Quem conhece os povos árabes vai aqui encontrar aqui algumas semelhanças. Além das carnes poderão assemelhar-se também na forma alegre, arrojada e esperta como encaram o jogo do comércio e como negociam o que quer que seja. Temos de começar por oferecer sempre metade do preço pedido, sendo este já especial para nós e achado da seguinte forma. Começam por dar o valor da peça, depois, e sempre de calculadora na mão, vão fazendo descontos por ali a baixo, porque sou simpático descontam, porque sou português descontam (é incrível como ao fim de 5 segundos já perceberam que somos portugueses), porque os portugueses são muito agradáveis, descontam ainda mais. Enfim, a minha técnica era a seguinte, fazendo sempre o choradinho, no mínimo igual ao deles, oferecia metade do seu “espectacular” preço e depois, após muita discussão, acabava-mos por dividir a diferença a meias. Saía sempre de produto na mão e com o cumprimento “Los portuguese son mui simpáticos, mas es dificil negocial com vosoutros…” Eu cá por acaso tenho cara de americano? Apesar de sair sempre com a noção de que ainda paguei a mais não posso esquecer de que o valor real das peças, nomeadamente artesanato ou arte, é bem maior. É que, afinal, estamos num país com uma mão-de-obra excelente mas desvalorizada.
A seguir esperava-nos Higuey. Com cerca de 60 mil habitantes, é já uma cidade e mostra claramente algum desenvolvimento industrial e comercial mais sério. O que surpreende aqui, além do já anteriormente descrito, é o trânsito. Quem observa de fora não percebe como é que, naquela encruzilhada de ruas onde nem se vê sinais, aquela enorme massa de veículos, carros ligeiros, pesados e principalmente motas, se cruzam e re-cruzam num aparente caos ordenado como se tudo aquilo fosse guiado por uma mão invisível. Aliás, consta que os dominicanos não têm carência de adrenalina. Eu próprio recebi dela quantidades industriais quando pude comprovar que ultrapassar em lombas ou curvas, mesmo quando vem carros de frente, é uma das manobras preferidas. Que aquilo acaba sempre por passar, lá isso passa! Também nunca percebi se eles alguma vez repararam ou sabem para que servem aqueles traços contínuos pintados a branco no meio das estradas.
Nesta curta viagem deu também para perceber mais um motivo que justifica a teimosia do bloqueio americano a Cuba. Parece que os principais beneficiários com o bloqueio são a R. Dominicana e outras ilhas adjacentes, pois desta forma vêm as suas produções de cana de açúcar e café, entre outras, serem escoadas para os Estados Unidos a preços bastante proveitosos para os “States”. E quem controla todo este enorme negócio? Claro, um consórcio Norte-americano. Logo, sendo Cuba a principal potência mundial na produção de cana de açúcar assim como um importante produtor de café e outros produtos afins e como não é previsível que os americanos possam, a curto ou médio prazo, meter aqui a mão é de todo conveniente este bloqueio. Para bom entendedor…Há muito que esta situação deixou de ser política. Há muito que o bloqueio obedece a interesses comerciais.
Continuamos lentamente em direcção ao sul. Passamos por uma ponte que cruza o rio Chavon, famoso e belo. Belo pelo verde que cobre as margens, pelas inúmeras palmeiras que se debruçam sob as águas, pelo suave ondular nas suas margens que rompem um vale de rara beleza e de vasta vegetação luxuriante. Famoso por ter sido o cenário do filme Apocalipse Now.
10:30, chegamos ao porto de la Romana. “Arrumados” numa embarcação de 2 andares com capacidade para 50 pessoas e preparada para o mergulho, saímos calmamente do porto em direcção à pequena Isla Catalina enquanto recebíamos os briefings acompanhados por uns excelentes e frescos “Cubas Libres” (cola + rum dominicano). No cais deambulavam crianças e jovens dominicanos que se atravessavam insistentemente aos turistas pedindo dinheiro ou “un regalo” enquanto estes fingiam ignorá-los ilustrando um quadro de dois mundos distintos que se cruzando não se misturam. Aproximamo-nos da ilha. Recebo como parceiro de mergulho um madrileno (O outro Carlos). Houve o Briefing entre mais umas Cubas Libres para matar a sede e fico a saber, já meio alegre, que vamos descer aos 6 metros e daí continuamos a descer até aos 12 metros onde encontraremos uma barreira de coral que desce abruptamente. Equipo-me ansioso por saltar. Organizam-se as equipas que entretanto vão saltando. Aguardamos pela nossa vez enquanto perscruto o horizonte e vejo a 300 metros as águas num verde azulado cristalino acariciar a areia branca da pequena ilha aparentemente deserta. Reparo curiosamente no meu lado direito um veleiro enorme adormecido sob a margem da ilha. Fico a saber mais tarde que se tratou num naufrágio durante uma das regatas da taça América.
Equipamento completo e verificado. Salto para a água e aguardo pelo resto do grupo e pela instrutora (Helga). Tudo se desenrola a bom ritmo e boa coordenação provando, aqui, a larga experiência e organização deste sistema. Grupo reunido, somos 6 e cá vamos nós afundarmo-nos neste fantástico el caribe.
A primeira impressão, que nos fascina e nos faz brilhar os olhos de felicidade é a excelente visibilidade e transparência destas águas. Várias espécies de peixes aproximaram-se de imediato, curiosos, como que a dar-nos as boas vindas. Esponjas erguem-se do fundo como pequenos vulcões amarelos e vermelhos. Corais, primeiro em pequenos grupos, como se nascessem aqui e ali do fundo da areia branca e fina, vão-se aglomerando conforme nos aproximamos da barreira. Onde há corais há vida e aqui muita vida. Peixes anjo, peixes trompeta, peixes vaca, espanhóis, peixes papagaio e muitos outros de brilhantes e variadas cores que reconheço das séries do Cousteau mas que ignoro o nome. Tenho de fazer um enorme esforço e pensar frequentemente que só tenho 36 fotos no rolo tal é a velocidade a que começo a disparar.
A aproximação à barreira de coral é uma visão inesquecível. Vamos flutuando por cima daquela vasta área de vida e cor e de súbito chegamos a um precipício cujo fim é uma mancha azul-escuro escura, quase negra que não nos deixa adivinhar a que profundidade termina. Olhamos para baixo e só velhos um vasto azul profundo. Afundo-me naquele vazio de silêncio perseguindo com a minha máquina espécies únicas e que eu sei que terei poucas oportunidades na vida para as reencontrar. Quando dou por mim, vejo o resto do grupo a flutuar vários metros acima. Olho para a consola e verifico surpreendido que já desci aos 18 metros. Subo, sem grande vontade, para reunir com o resto do grupo e reparo que o meu parceiro me acompanha fazendo sempre o mesmo perfil de mergulho do que eu. O Carlos revelar-se-ia aliás, um excelente parceiro. Continuavam os Carlos na cauda do grupo que, parecia ter como principal cuidado não se afastar do instrutor, enquanto estes se entretinham a absorver o máximo possível daquela cor, luz e formas que emanam daquele mar de de vida e maravilhoso silêncio. Fotografa-se, persegue-se belas criaturas, inspeccionam-se buracos. Alguém do grupo atinge 1/2 garrafa (100 bar) e por isso temos de fazer o percurso inverso. “Maldito, não sabe respirar mais devagar?”, é o primeiro pensamento que inevitavelmente nos ocorre. E lá voltamos nós, os carlos com ar para muito mais, seguindo o grupo tão atrás que por vezes já só distinguíamos o fluorescente verde das barbatanas. Fiquei a saber mais tarde que estava-mos com uma visibilidade de 25 a 30 metros. Pelo caminho tenho ainda a oportunidade para ver e fotografar uma enorme moreia verde (a primeira que vejo), que imóvel no fundo mostrava os dentes afiados a quem se aproximasse. Tive de aproximar a máquina 30 cms para obter um “close up”. Chegamos ao cabo e iniciamos a subida. Fico ainda uns instantes para trás, traçando um enorme circulo despedindo-me daquele lugar fantástico. Como o tempo é relativo, pensei, como foi possível condensar em 40 minutos tudo o que vi e senti. Como foi possível condensar numa fracção de tempo o que passou por mim neste fluxo tranquilo de cor, luz, forma, vida, descoberta, movimento, emoção e felicidade. Olho para cima e vejo a instrutora fazendo-me sinais para subir. Vamos lá então Carlos…Voltamos lentamente à superfície e levo comigo, do fundo, um enorme sorriso que me atinge a alma.
Uma pequena incursão até à praia da Isla Catalina, almoço servido na areia sob telhados de folha e trocos de palmeira. Mais umas cubas libres e meia hora para relaxar deitado sob valiosas sombras na areia, a passear junto à margem descobrindo pedaços de coral e pequenas conchas coloridas ou, para alguns, num tranquilo banho nas águas calientes del caribe.
1:40, hora de subir a bordo. Novo briefing, agora o meu grupo é de quatro pessoas mais Helga (Guia). Novo salto para a água, grupo reunido, um círculo geral desenhado com o indicador e polegar e para o fundo com todos.
Afundar neste mar de coral é perceber quanto limitadas são as palavras pois todas juntas não chegam para descrever o que os meus olhos viam e a minha alma sentia. Caio aos 8 metros e quando dou por mim vejo-me rodeado de dezenas, centenas, milhares de pequenas criaturas coloridas que deambulam por cima, por dentro, entre uma vasta superfície de coral, esponjas, algas, gardénias e outros géneros de vida que me é impossível classificar. Curiosamente, se só se percebe isto quando se mergulha, os inúmeros peixes com que nos cruzamos apenas se limitam a desviar o suficiente para nós passarmos. Outros acompanham-nos tal guarda de honra. Vi peixes azuis e violeta, amarelos e pretos, vi peixes prata e laranja, cinza e vermelhos, vi peixes trompeta, peixes borboleta, vários géneros de peixe papagaio e peixes balão, vi peixes com riscas coloridas horizontais e verticais, vi uma moreia bebe e uma moreia adulta, vi uma pequena raia pousada na areia e, aquela imagem que perdurara para sempre na minha memória, quando me ajoelhei numa pequena ilha de areia; O olhar de baixo para cima e ver, até onde a visibilidade permitia, aquele universo de estrelas, cometas e sois de todas as cores e formas, aos milhares que se moviam docemente como numa dança perfeita e misteriosa ao som silencioso da vida. Se alguma vez tive dúvidas sobre as vantagens do mergulho elas afundaram-se ali comigo, se alguma vez pensei se de facto valeria a pena andar com uma enorme garrafa às costas, preso à vida por um tubo de borracha, arrastando outros tubos, reguladores, válvulas, consolas, manómetros e outras coisas, ali cheguei à feliz conclusão de que vale sempre a pena. Ali esqueci o equipamento, abandonei o regulador que me alimenta, despi o colete, tirei o fato, descalcei-me, abandonei o pesado cinto de chumbo. Ali abandonei todo o desconforto e incómodo de tudo o que cobria o meu corpo e fundi-me, apenas eu, naquele fantástico oceano de vida. Lembro-me de abrir os braços e permanecer imóvel, a flutuar a 1 metro acima do fundo imenso tempo num exercício de flutuabilidade perfeita (nestas águas tudo é mais fácil) meditando sobre aquela beleza imensa. Ali pensei em todos os que me são queridos e partilhei com eles, sem que o soubessem, a felicidade daquele momento. Fotografei o que podia e não pude deixar de pensar se seria justo violarmos constantemente aqueles paraísos roubando a paz às sua inúmeras criaturas. Será que pelo prazer que aqueles momentos nos dão alguma vez equacionamos o equilíbrio e a harmonia daqueles locais? Felizmente os mergulhadores são, na grande maioria, apenas observadores, amam e respeitam o mar com reverência e consideram sagrados os locais onde se afundam. O grupo avança lentamente e eu quase o perco por algumas vezes. Demoro o mais possível o suficiente para os não perder de vista. Fotografo o que posso, persigo peixes pedindo-lhes que me deixem admirar e registar na minha máquina, ainda que toscamente, a sua beleza. Mergulho a cabeça em buracos procurando o que lá se esconde encontro na areia criaturas que se confundem com ela.
No regresso cruzamo-nos com outros grupos que mergulharam depois de nós. Voltamos ao local de descida. Reunimos o grupo. Helga faz sinal para subir e eu peço-lhe para ficar por mais algum tempo para acabar o rolo da máquina. Ela autoriza e eu alegro-me pela confiança depositada. Começo então a nadar em círculos tentando absorver o máximo daqueles últimos minutos. Àquela profundidade e com aquela visibilidade é fácil ver o casco do navio balançando suavemente sobre a minha cabeça a 9 metros. Ainda tenho ar para mais algum tempo de deslumbramento. Ajoelho-me por um instante sobre a areia e agradeço aos deuses a oportunidade daquele momento. Vejo de súbito uma mancha sobre a minha cabeça. É a Helga a pedir-me para subir. Volto lentamente à superfície, nadando em círculos demorando o máximo possível, olhando para o fundo que se afasta e aquela distância ia descobrindo mais e mais beleza. Uma paragem a 3 metros e subo finalmente terminando o mergulho.
O dia acabou bem melhor. Acabou cheio, acabou completo, acabou com o regresso ao entardecer, com um grupo cansado mas convencido. Convencido da magia destas águas, destas gentes, destes fundos, destas paisagens e deste ar que se respira. Convencido que os 80 dólares foram bem gastos. Convencido que um dia havemos de voltar. E tudo isto ao som de um merengue.
Julho 2000






