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Ruinas de São Paulo
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Lost in Translation em Macau

Onze da noite em Portugal. Seis da manhã em Macau. Não consigo dormir. Estou bêbedo de sono. Em puro estado zombie. Voltas e voltas na cama. Não consigo dormir. Queria. Mas não consigo. O fuso horário ainda faz estragos. Levo dois dias no outro lado do planeta e o corpo ainda não entrou no ritmo. Parece não haver maneira de entrar. Levanto-me. Desço à entrada do hotel. Do fresco do ar condicionado do décimo andar para o bafo de calor tropical da rua. Bafo quente. Húmido. Quase desumano. Um cigarro. Um par de sexagenárias balançam a silhueta no jardim em frente. Tai chi. Em coreografia. Por ali fico um bocado. É tudo muito estranho. Agradavelmente estranho. Tirando a dormência. Volto a subir ao décimo e desço com o laptop. O Vieira ganhou as eleições no Benfica. O ministro Manuel Pinho levou os dedos à cabeça e encornou o parlamento. Queimo alguns minutos neste chorrilho. Volto à cama. Não consigo adormecer. Venha o pequeno almoço. Nesta altura vale tudo. Duas panquecas, ovo cozido, fruta, chá, sumo de laranja. À minha volta come-se sopa, vegetais em caril, massas, arroz, tofu e outras coisas que nem dá para perceber. Continua tudo muito estranho. Agradavelmente estranho. Também eu sou um estranho. O único europeu na sala.


A piscina aquecida fica no mesmo andar. A funcionária, sorriso rasgado de olhos em bico, tenta explicar-me o horário em inglês. "From seven to link". "Line?", pergunto. "Yes, line", responde. "Nine?", insisto. "Yes, yes, line". Que delícia! Braçada para lá, braçada para cá, algumas piscinas depois sento-me e observo. Três mulheres e dois homens. Nadam todos de forma desajeitada. Muito devagar. Em câmara lenta. Parecem estar ali há séculos. Nesta altura sou um Bill Murray em Lost in Translation. Muito Lost in Translation.


Regresso ao quarto cansado, ainda mais zombie. Desta vez durmo. Pouco. Apenas uma horita e meia. Há coisas combinadas e é preciso tratar de burocracia. Papelada relacionada com os serviços de migração. Dar uma volta pelas agências imobiliárias à procura de casa. Abrir conta no banco.


Na rua é tudo ainda mais estranho. Nomes das avenidas em português, painéis das lojas e publicidade em cantonês, mandarim... para mim é tudo chinês. Não entendo patavina. Tirando os anúncios Prada, Dolce&Gabanna, Rolex, Adidas, Nike, coisas desse género. O Cristiano Ronaldo aparece aqui e ali, em cartazes de publicidade.


Atravesso prédios carregados de grades até ao último piso. Andaimes de construção em bambú. Casinos que são arranha-céus. Gente. Muita gente. Macau tem perto de 500 mil habitantes. Dez milhões de turistas todos os anos.Tudo isto em 28 quilómetros quadrados. Diz a Wikipédia que é a cidade com maior densidade populacional do mundo. Dá para ver, cheirar e sentir. Acotovelo alguém aqui e acolá.


Nesta altura, por volta das duas da tarde, o bafo de calor é ainda mais húmido e brutal. Pode parecer estranho mas estou mais habituado. Tratada alguma burocracia, aproveito para embrenhar-me nas ruelas. Todos os estabelecimentos comerciais tem incenso à porta. Há recantos espirituais, pequenos santuários, porta sim, porta não. Mais incenso no ar. A caminho das ruínas da Igreja de São Paulo, ex-libris turístico da cidade, vende-se pescoço de porco grelhado. Fico-me pelo lemon ice tea. É fresquíssimo e excelente. Aprecio as ruínas ao anoitecer. Um pedaço de fachada que deixamos por aqui. É tudo novo. Um admirável mundo novo. Pelo menos para mim. Estou aos pulos por dentro.


O estômago aperta e a opção recai sob um restaurante de esquina. Pauzinhos. Frango grelhado com arroz e sumo de maracujá por cerca de 35 patacas. Não chega a 3,5 euros. Ambiente jovem. Miúdas giras. Chinesinhas influenciadas pela moda ocidental. Acho que nunca vi tantas mini-saias juntas. Traços muito diferentes. Exóticos.


Começa a chover. Chuva tropical. Do céu desabam parafusos de água quente. Logo hoje! Soube de véspera de uma festa ao ar livre integrada no evento This Is My City 09, uma espécie de festival organizado por uma associação cultural portuguesa de Macau, no Albergue da Santa Casa da Misericórdia. Que se lixe a chuva tropical. Cheguei ao espaço, de bonita arquitectura colonial, encharcado da cabeça aos pés. Não tinham passado dois segundos e tinha uma cerveja na mão. "Open bar", diz-me um chinês sorridente, com óculos pretos, de massa. "Great", agradeço, satisfeito, apesar do estado lastimável da minha indumentária. Macau Beer. Cerveja de Macau. Nada de especial, mas devo ter bebido umas seis ou sete. Não havia alternativa. Ainda não tinha acabado uma e o chinês sorridente dos óculos de massa estendia o pulso com uma "Macau biã". A festa que era para ser ao ar livre foi acontecendo nos recantos mais abrigados. De dois em dois minutos alguém dançava na chuva, pés descalços. Ar de felicidade. Chuva, calor, humidade. Tudo muito estranho. Cada vez mais, agradavelmente estranho. Não dancei à chuva. Tirei as medidas à fauna. Portugueses, chineses, macaenses, mais um ou outro estrangeiro, uma mistura engraçada. Conversa-se em cantonês, português e inglês. Acabou a festa e ainda fui beber uma cerveja do Laos a um barzinho simpático.


Dormente como estava não demorei muito a regressar ao hotel. Madrugada fora. Ainda aquele bafo de calor. Ainda aquela humidade. Cada vez mais habituado. Cinco minutos a pé - em Macau tudo é perto - e tinha o bicho de sete cabeças à minha frente. Outra vez a cama. Aquela cama. Será que é desta? Foi mesmo. Dormi umas horitas. Mas ainda não foi que nem um menino.


 


 

Pedro

Jornalista


Chop Suey Macau
Crónicas exóticas do Oriente

Upload: 2009-08-21 12:18:11

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