O ar estava quente e o Sol acariciava agora o horizonte desenhando uma intensa estrada de fogo que se estendia desde Oeste, para lá do mar, até se desfazer na areia fina e branca que repousava agora, ao entardecer, revolta pelos pés dos banhistas e pelas pás das crianças que, durante o dia, escavaram na construção de vales e montes ou na incessante busca de tesouros e outros mistérios que povoam generosamente o imaginário das crianças.
Sentado na esplanada do restaurante onde jantava e repousava, após mais um dia de intensa actividade e lazer, contemplava este fantástico entardecer que envolvia toda a Calla, Calla Galdana, de uma atmosfera mágica, intensa e única como só o Mediterrâneo pode oferecer, nas tardes quentes de Julho em Menorca, a mais pequena e a mais bela das Baleares.
Protegidos pela Calla dançavam, tranquilamente embalados pela brisa, alguns veleiros vindos, na sua grande maioria, do Norte. Algumas tardes passei, ali, a contempla-los e a imaginar as rotas, os ventos, os dias e as noites e as gentes que os trouxeram de um qualquer porto da Noruega, da Inglaterra, da Holanda ou, mesmo nalguns casos, do outro lado do Atlântico.
Por vezes olhava-os tão fixamente que fazia o tempo parar, permanecendo assim, suspenso num estado quase hipnótico como se eles me prendessem ao passado, aos mares e às aventuras que outros possuíam e conheciam, enchendo a minha alma de fantasia e cheiro a maresia.
Nessa tarde estava particularmente sensível. O suave ondular dos mastros que dançavam ao longe, o laranja intenso e vivo que se derramava no ar húmido e quente, a brisa suave que o refrescava, o Sol que se afundava lentamente no horizonte, as últimas vozes do dia dos que recolhiam agora ao hotel para se prepararem para a noite, os sons familiares dos restaurantes que começavam agora a servir os primeiros jantares e as flores silvestres que repousavam em pequenos jarros de barro sobre as mesas, criavam uma atmosfera única e apaixonada que me prendia aqueles barcos que repousavam nas aguas calmas e protegidas pela Calla. Naqueles ou em todos os outros, mais distantes, que de pano erguido, à bolina ao largo ou à popa, cortavam implacavelmente o Mediterrâneo como pequenos pontos traçados no horizonte rumo, quem sabe, a outra calla, a outro porto ou de regresso a casa para um merecido repouso depois de muitas milhas vencidas e conquistadas ao mar, de muitos ventos aliados ou indiferentes brisas e de, certamente, alguns momentos difíceis e de muitos entardeceres e alvoradas consumidos a partir dos convés....







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pedro em 2009-10-01 10:29:06