Bem, na verdade, a Sicília não é um reino… nem duas ilhas, mas uma só. A Sicília é uma das várias províncias de Itália. E uma só ilha, se a reconhecermos apenas pela geografia que a moldou, tornando-a numa estrela insular do Mediterrâneo em torno da qual gravitam uma série de outras ilhotas. Mas na viagem que fiz o ano passado a esta fantástica ilha mediterrânica, descobri que se, pelo contrário, a olharmos com o coração, conseguimos vislumbrá-la como um reino semelhante a todos aqueles reinos da mitologia, únicos na sua identidade, plenos de magia e de mistério, a um tempo apaixonantes e, a espaços, inacessíveis. E, se a olharmos com todos os nossos sentidos, rapidamente pressentimos que esta ilha se desdobra sempre em duas… a ilha da terra, e a ilha do mar.
Começámos a viagem por Siracusa, no extremo Sudeste da ilha. Antiga rival de Atenas e Cartago durante a Antiguidade Clássica, Siracusa chegou a dominar as rotas de comércio de todo o Mar Mediterrâneo e, até à invasão árabe da ilha, manteve-se como a capital da Sicília. Cidade tranquila e luminosa, encostada ao azul mais profundo do Mediterrâneo, Siracusa é a Sicília do mar.
O comboio deixa-nos no centro da cidade nova, Acradina, e daqui o autocarro da transportadora pública leva-nos (gratuitamente, algo inédito!) em menos de 10 minutos até à zona velha de Siracusa, situada na pequena ilha de Ortygia, quase colada a terra. As primeiras ocupações humanas estabeleceram-se precisamente em Ortygia há cerca de 3000 anos atrás, atestando a antiguidade desta pequena grande cidade do Mediterrâneo. Mas foi apenas com a chegada dos Coríntios em 734 BC que as fundações da cidade foram estabelecidas e alargadas até à zona continental, Acradina. Os gregos de Corintos chamaram à cidade Syracoussai, em honra da ribeira Syracò que na altura circulava junto à cidade. Atravessa-se a Ponte Nuovo, e o pequeno estreito que separa Ortygia da parte nova da cidade, o qual se encontra polvilhado de batéis de pesca, pequenos barcos de recreio e várias embarcações pertencentes ao Clube Náutico de Siracusa.
É Verão nesta cidade virada para o mar, e há sempre uma regata a entrar ou a sair, no estreito. Este é um dos vários locais de Siracusa onde as pessoas vêm passear ao fim de semana, os miúdos vêm ver as regatas partir e chegar, e outras pessoas mais atarefadas cruzam a ponte para tratar de assuntos que a cidade juntou mas a geografia dividiu. O pequeno mas florescente mercado de Siracusa fica em Acradina, junto à ponte. Durante a manhã, as pequenas ruas ocupadas pelas hortaliças, pelos frutos secos, pelas azeitonas de todas as cores e temperos, pelas cestas de tomate seco, pelas caixas a transbordar de peixe e polvo, pelos mil aromas da mistura de ervas secas e especiarias, enchem-se de gente e de pregões. É impossível resistir ao apelo… E enchemos vários sacos de papel com fruta fresca e frutos secos, antes de cruzarmos a ponte para nos encontrarmos com Ortygia.
A cidade antiga é um emaranhado de ruas, ruelas e escadinhas, muitas delas fazendo a vista desembocar directamente no azul do Mediterrâneo, e quase todas unidas no coração da zona velha, a Piazza del Duomo, a acrópolis da antiga cidade grega. A primeira coisa que desperta a atenção imediata de qualquer visitante é a forma estranhamente assimétrica desta praça... Os siracusanos, como bons sicilianos, gostam de fazer as coisas muito à sua própria maneira! Para além desta primeira impressão quase intuitiva, a praça impressiona pela parada monumental de edifícios em estilo Barroco que circundam o espaço. Tal como acontece em tantas outras cidades do Leste da Sicília, que nos deslumbram a cada esquina com este Barroco talhado na pedra calcária branca-rosa da ilha, o refinamento arquitectónico teve origem numa enorme catástrofe natural ocorrida no século XVII. Em 1693, um violento terramoto, conhecido como o sismo do Val di Noto, arrasou cidades inteiras na região, deixando um rasto de destruição e morte. Mas apesar do forte abalo sofrido, os sicilianos viraram a má sorte a seu favor e servir-se do desastre como catalisador de uma fantástica reconstrução urbana das cidades destruídas. Sobre os escombros da tragédia, ergueram do chão novas cidades totalmente renovadas segundo o estilo exuberante da época, o Barroco.
Na Piazza del Duomo, celebra-se sem qualquer modéstia este Barroco! Palácios, edifícios governamentais, igrejas e ao centro, a Catedral... Imenso templo siracusano, onde a fusão de arquitecturas pertencentes às várias épocas que marcaram a história da Sicília é um forte testemunho da marca cultural deixada pela passagem de povos tão distintos, no carácter da cidade. Toda a fachada do edifício constitui uma espécie de concha arquitectónica em estilo Barroco, mandada erigir pelos governantes espanhóis da ilha depois do sismo de 1693, e que encerra o esqueleto do templo original grego, dedicado à deusa Athena. As fantásticas colunas dóricas do templo grego, com 25 séculos de idade, são visíveis tanto na fachada como ao longo de todo o interior do edifício, e são elas ainda que suportam o tecto da catedral. Ao entrar, é impossível não suster o olhar e a respiração perante a beleza arquitectónica deste lugar, conseguida pela união no mesmo espaço de culturas tão diversas uma da outra, e tão distantes no tempo também. Vozes de diferentes deuses unem-se debaixo deste tecto, e é talvez impossível não ficar também algo comovido com a homenagem que presta às formas tão diversas com que nós, pessoas, conseguimos apreender e sentir o mundo que nos rodeia, tal como o nosso mundo interior. No tempo da Siracusa grega, o templo estava coroado por uma estátua dourada da deusa Athena, a qual servia de farol para os marinheiros que se encontravam no mar. Hoje, no mesmo local, ergue-se uma outra estátua, a da Virgem Maria. No entanto, e apesar do lugar de destaque, não é Santa Maria que ocupa o lugar primeiro no coração dos siracusanos católicos, mas Santa Lucia, padroeira da cidade e que foi aqui martirizada pelo imperador romano Diocleciano.
Indiferente aos ecos de sofrimento do passado, a piazza enche-se de esplanadas sob o signo do sol e do Barroco. Deixamo-nos ficar um pouco a absorver esta luz, entrecruzada por conversas dispersas em várias línguas, pelo riso das crianças que brincam sem medos nem preocupações, pelo rumor das ondas que por instantes surge arrastado pelo vento. Tudo é sereno e alegre. Torna-se difícil imaginar esta como a ilha da máfia, a terra sem lei gerida pela lei das balas, das vinganças de sangue, dos silêncios impostos pela ameaça constante da morte, da Cosa Nostra. Mas é aqui realmente que ela vive e respira, embora actualmente se tenha transformado em algo imperceptível aos olhos de muitos, inclusive (ou principalmente…) aos que vêm de fora, e quase até em mais um elemento tradicional, ‘endémico’, da ilha… As t-shirts vendidas em algumas lojas mais turísticas ilustram bem o clima de maior abertura conquistado nos últimos tempos: um ‘pistoleiro’ mafioso surge na estampa com uma das máximas sicilianas ‘non vedo, non sento, non parlo’… o mesmo que dizer ‘não vejo, não oiço, não falo!’! Uma brincadeira bem-disposta que há uns anos seria provavelmente impensável.
Ao contrário da Cosa Nostra, o outro símbolo da Sicília, o oficial, encontra-se bem visível em todas as ruas e recantos de Siracusa… Pessoalmente, ganhei um carinho especial pelas bandeirinhas coloridas que se balançam alegremente por cima de nós, à espreita nas varandas e nos beirais, enquanto percorremos as ruas da cidade velha, é como se estivéssemos a receber uma espécie de bênção contínua dessa divindade mitológica que é acarinhada por toda a ilha. A Trinacria, com a sua cabeça de medusa, cheia de serpentes, e as suas três pernas e três espigas de trigo dispostas como uma hélice em torno da medusa, tornam-na difícil de passar despercebida. O nome vem do grego, ‘treis’ (três) e ‘akra’ (promontório), e as três pernas representam precisamente os três extremos promontórios que definem o contorno da ilha. As espigas representam a fertilidade da Sicília, e a Gorgone, assim chamada a medusa, é filha de duas divindades do mar e representa a própria essência marinha da ilha.
A sul da praça, seguindo a Via Picherali na direcção do mar, encontramos um pequeno jardim mágico encostado à muralha do passeio marítimo… A planta do papiro, símbolo do Egipto e da fertilidade do Rio Nilo, cresce e encanta neste lugar com o seu verde exuberante, exótico de outras paragens! Aqui, em Siracusa, é o único sítio em todo o mundo, fora do Norte de África, onde cresce o papiro. A planta é abundante na zona do rio Ciane, próximo a Siracusa, e a dada altura foi trazida para Ortygia, tendo chegado a ser utilizada para fazer papel no século XVIII. A escolha deste local para fazer crescer o papiro dentro da própria cidade, não terá sido difícil… Desde tempos antigos que aqui existe uma nascente de água, que chegou a ser a principal fonte abastecedora de água doce da cidade, e que é conhecida como Fontana (fonte) Aretusa. Reza a lenda que foi a deusa Artemis (deusa da Caça) que fez nascer a Fontana, quando transformou uma das suas ninfas, Aretusa, na nascente de água, para escondê-la e protegê-la das atenções indesejadas do deus-rio Alpheus. Aretusa, já feita criatura líquida, fugiu de Acradina por baixo das águas do mar, perseguida por Alpheus, e as suas águas acabaram por se misturar quando emergiram à superfície, neste lugar de Ortygia. Os amores do passado inspiram as paixões do presente, e hoje o jardim e a sua Fontana são o local de eleição para as trocas de beijos dos casais siracusanos.
Lá em baixo, no mar azul e dourado que rodeia Ortygia, inúmeros barcos de recreio orbitam em torno da cidade velha… Na ausência de uma praia junto à cidade, casais, famílias e grupos de amigos aproveitam o tempo livre para mergulhos e banhos de sol nos seus barcos pessoais. Alguns levam as canas de pesca, e o jantar dessa noite começa a ser pensado logo a bordo…! Em vários locais, junto à muralha que dá a volta a Ortygia, também foram instaladas plataformas flutuantes onde toda a gente pode descer, dar um mergulho e deitar-se sob o sol e o céu de Siracusa. A velocidade do tempo abranda, e o espaço dilata-se sobre a superfície transparente das águas, sobre as rochas que se vislumbram lá no fundo, sobre os cardumes de pequenos peixes que deslizam através das nossas pernas…
Siracusa vibra e respira vida marítima, o seu coração é feito de água salgada. E em todos os cantos e recantos do seu corpo de pedra, ela não nos deixa esquecê-lo, mesmo em pequenos pormenores… Como na placa de uma das muitas ruelas que abandonam o passeio marítimo, na direcção do interior da cidade velha. Aí lê-se ‘Via delle Sirene’, Rua das Sereias. Afastamo-nos da linha do mar, mas as sereias acompanham-nos sempre no caminho.
Do mar para o interior, embrenhámo-nos no coração montanhoso da Sicília para descobrir um dos seus segredos mais bem guardados. Não, não é força de expressão nem lirismo exacerbado, a primeira vez que os nossos olhos encontram Ragusa no horizonte sente-se um cortar de respiração! Ragusa Iblea, assim chamada a cidade velha, confunde-se com a montanha, e parece feita da própria terra que é o chão da Sicília. Alcandorada no topo do monte, espraiada por toda a encosta, a cidade desdobra-se em infinitas escadas e escadinhas, entre palácios e igrejas rodeados por um mar de casas e telhas da cor das rochas. A magia do Barroco também foi derramada neste lugar do interior da Sicília, e hoje Ragusa orgulha-se do reconhecimento oferecido pela UNESCO às suas maravilhas arquitectónicas: entre palácios, igrejas e edifícios de utilidade pública, 18 dos seus monumentos conquistaram o estatuto de Património da Humanidade.
Ragusa divide-se em duas cidades, a nova e a velha. Ao contrário de outras cidades da região, que foram severamente afectadas pelo terramoto do Val di Noto em 1693 e cuja reconstrução foi feita exactamente no mesmo local, em Ragusa a cidade nova foi erigida num pequeno planalto ao lado da cidade destruída, dada a extensão dos danos e também porque a própria geografia montanhosa não facilitava a reconstrução. No entanto, a antiga aristocracia da cidade mostrou-se muito relutante em abandonar os seus magníficos palácios, privilegiados pela fantástica localização na colina, com vista insubstituível de todo o vale circundante. A aristocracia Ragusana ficou, assim, e talvez encorajada pelo seu exemplo, uma grande parte da população acabou por nunca abandonar a colina mágica… Ragusa Iblea renasceu aos poucos das cinzas do terramoto, ao mesmo tempo que a cidade nova se foi desenvolvendo a seu lado.
Actualmente, a forma mais inesquecível de entrar em Ragusa Iblea é precisamente cruzando a ‘ponte’ entre as duas cidades, uma passagem estonteante em forma de rua serpenteada que dá pelo nome de Corso Mazzini. As vistas oferecidas pela Corso Mazzini deixam qualquer pessoa sem palavras, rendida ao encanto desta cidade provinciana, rodeada pelo silêncio de todo o campo em volta e pela luz limpa das primeiras horas da manhã. Há oliveiras nos montes e um sol quente, mediterrânico, que faz nascer o dia ao som das cigarras, dos pássaros e dos rebanhos que pastam em liberdade pelas encostas. Quem terá sido capaz de sonhar esta cidade, nesta colina perdida do interior da Sicília, e transformá-la em realidade para deleite do nosso olhar…? Não tenho resposta, penso ‘talvez os deuses’, e agradeço-lhes em silêncio à medida que vamos descendo a Corso Mazzini.
Algures a meio da descida, optamos por fazer o resto do caminho pela chamada ‘salita commendatore’, uma espécie de descida em corta-mato feita através de intermináveis escadinhas e passagens estreitas por baixo de arcadas, que nos leva directamente à Chiesa di Santa Maria delle Scale, ou Santa Maria das Escadas, um nome que não podia ser mais apropriado. Construída no século XII, esta é uma das igrejas mais antigas da cidade e hoje património da humanidade. Daqui avista-se um pouco mais abaixo, e a contrastar com o mar de telhas da cidade velha, a belíssima cúpula coberta com azulejos vidrados da Chiesa di Santa Maria dell’Itria, também ela monumento classificado. Ao fundo, do outro lado da colina e da cidade, pode ver-se ainda o manto verde que é o Giardino Ibleo, o pitoresco jardim oitocentista de Ragusa.
Continuamos a descer, rodeados por serenos palácios em tons pastel, por passagens e vielas onde as casas espreitam a rua através das suas portadas altas de madeira. Um gato amarelo segue-nos com o olhar do alto da sua varanda. Faz muito calor nesta manhã mediterrânica de Agosto, não é dia para os gatos andarem na rua... Nem sequer as pessoas! Só que as pessoas são um bicho estranho, deve ser o que ele está a pensar... Estranho, mas sobretudo muito curioso, poder-se-ia responder-lhe. Porque é a curiosidade, mais do que outro motivo qualquer, julgo eu, que é capaz de nos fazer enfrentar o calor tórrido duma manhã siciliana para descobrir as maravilhas duma cidade que não é nossa, para nos deixarmos surpreender e deslumbrar a cada curva do caminho, ao vislumbrar cada estátua de pedra, a cada piazza banhada de sol que se abre à nossa frente.
Chegamos à Piazza della Repubblica, verdadeira porta de entrada em Ragusa Iblea, onde desembocam os últimos degraus da ‘salita commendatore’. A pequena praça, rodeada de cafés e pequenas lojas, é o local de onde partem, literalmente, todas as ruas que, desdobrando-se depois em outras, percorrem a cidade velha até ao outro extremo da colina. Ao centro na piazza, mais uma igreja emblemática de Ragusa Iblea, a Chiesa del Purgatorio, erguida sobre uma antiga fortificação bizantina. As escadarias da igreja, protegidas do forte sol da manhã, são a melhor sombra da praça para recuperar energias e a respiração antes de se começar a subir a colina de Ragusa Iblea em direcção ao centro da cidade velha.
A partir deste local, é possível fazer uma de duas opções de percurso: contornar toda a colina, percorrendo a Via del Mercato, a qual delimita a cidade a norte e funciona como um fantástico miradouro que oferece vistas únicas da paisagem envolvente; ou seguir pela pequena Via Giulia, que oferece entrada directa no coração urbano de Ragusa Iblea, e nos deixa mergulhar na quietude dos ondulantes passeios de pedra, dos palácios ‘adormecidos’ e das casas tão velhas quanto a própria cidade. Optamos pela segunda hipótese, para pôr um travão na tentação irresistível de querer devorar todas as vistas panorâmicas da cidade, correndo o sério risco de não conhecer a cidade em si!
Não nos arrependemos um minuto, claro. Ragusa Iblea é tão deliciosa por dentro, como promete vista de fora. No entanto, seja qual for a escolha, o destino é sempre o mesmo, a Piazza del Duomo, bem no centro da cidade velha. Mais uma vez, o estilo Barroco impõe-se na praça principal desta cidade do interior da Sicília, para que não nos esqueçamos que é ele o verdadeiro ‘senhor’ da ilha mediterrânica. Penso no ‘Leopardo’, a famosa história do siciliano Giuseppe Tomasio di Lampedusa, levada ao cinema em 1963 pela mão do realizador Luchino Visconti, e que mais do que uma história de amor e ruína a atravessar os tempos conturbados da unificação da Itália no século XIX pela mão do célebre Garibaldi, é um verdadeiro retrato da Sicília profunda e provinciana, entalada entre as glórias do passado e a decadência da era pré moderna, mas sempre muito orgulhosa de si própria. A cidade do Leopardo não era Ragusa, mas podia muito bem ter sido. E a famosa conversa entre o Príncipe de Salina (o Leopardo) e o seu sobrinho, no momento em que se dá o desembarque das tropas de Garibaldi na ilha, e em que aquele lhe diz ‘se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude’, também se podia bem aplicar aqui. A face antiga de Ragusa Iblea, que se vai revelando devagar à medida que a reconstrução dos velhos edifícios prossegue, só foi possível ser recuperada para o presente pela mudança de mentalidades que obrigou os próprios sicilianos a valorizar o seu património, não com o olhar dos que conseguem recordar a beleza perdida, mas com olhar daqueles que querem vê-la transformada novamente em realidade.
A coroar a piazza encontra-se o mais importante monumento de Ragusa, também ele património da UNESCO, a Cattedrale (ou ‘Duomo’) di San Giorgio. Construída no mesmo local onde se erguia o antigo templo dedicado ao deus Vulcano, pode dizer-se que a catedral assemelha-se a uma espécie de ‘bolo de casamento’ arquitectónico de três andares, sucessivamente mais pequenos, e cada um suportado por belíssimas colunas Coríntias. A fachada é ligeiramente convexa, o que faz aumentar ainda mais a beleza e grandiosidade do edifício. Em torno da praça, pequenos restaurantes, lojas de vinho, gelatarias e cafés dão continuidade à tradição das pessoas reunirem-se na piazza. Ragusanos e estrangeiros, todos se encontram inevitavelmente aqui. E todas as conversas convergem neste local, algo que sempre foi também uma tradição levada muito a sério pelas pessoas da cidade, como comprova um dos edifícios mais originais de Ragusa Iblea… O chamado ‘Circolo di Conversazione’ (Círculo de Conversação) é um edifico neoclássico construído em 1810 propositadamente como casa de cultura e de tertúlias, algo inédito à época. No interior, sete salas acolhiam as elites intelectuais da cidade que aqui vinham propositadamente para discutir novas ideias e novas correntes culturais, literatura e arte em todas as suas formas, sob o olhar atento de Michelangelo, Dante, Galileu e Bellini, representados em cada um dos quatro cantos do edifício. A fachada azul clara abre-se ao exterior através de três entradas com bonitas portadas altas de madeira verde-escura, sobre as quais três baixos-relevo em pedra representam, ao centro, duas mulheres aladas que transportam uma lamparina para ‘iluminar o conhecimento’, e nas laterais imagens de esfinges, personagens mitológicas com corpo de leão e cabeça de mulher.
Deixamos estas e outras conversas para trás na Piazza del Duomo e percorremos o resto da cidade até ao outro lado da colina, devagar, sem pressas, ao ritmo da luz morna da tarde. Os tons pastel das casas e palácios assumem tonalidades diferentes consoante a luz branca e límpida da manhã, ou aquela luz dourada e macia do final do dia. E a cidade transforma-se assim suavemente perante o nosso olhar, permanecendo sempre a mesma.
No outro lado da colina, onde a cidade termina a leste, as tardes são perfeitas no Giardino Ibleo, o pequeno jardim público de Ragusa Iblea, plantado no século XIX em torno das ruínas de três igrejas medievais. A luz do sol é filtrada pelo tecto verde das palmeiras e das trepadeiras, e o cheiro das rosas e do jasmim invade todos os espaços. Na verdade, o jardim parece ter sido criado propositadamente para encontros apaixonados… a sua aura naturalmente romântica deve ser capaz de derreter o coração mais gelado e fazer nascer aquele desejo de namorar à moda antiga, de mãos dadas e beijos furtivos num clássico banco de jardim! Esta é realmente a zona da cidade perfeita para os pequenos prazeres da vida, descontraída e plena daquela animação tranquila das pequenas cidades.
A noite desce quente e estrelada sobre Ragusa Iblea. As esplanadas e os pátios perfumados dos restaurantes na zona do Giardino Ibleo vão sendo ocupados tranquilamente pelas pessoas. Começa-se o jantar com uma tábua de queijos, e talvez um pouco do fantástico presunto siciliano. O vinho da ilha é forte, como tudo o resto na Sicília. Depois é o aroma do manjericão e dos orégãos que chega e toma conta dos sentidos. À volta, as conversas alegres enchem o ar, quase sempre em italiano.
Misteriosamente, Ragusa tem-se mantido fora do olhar da maioria dos turistas estrangeiros, permanecendo tranquila, bela e absolutamente genuína no alto da sua colina. Mas provavelmente, não por muito mais tempo. O reconhecimento atribuído pela UNESCO à beleza e originalidade da cidade, e a feliz reconstrução dos edifícios antigos que se lhe tem seguido, irão colocá-la seguramente no topo da lista dos locais a visitar na Sicília, e talvez até na cidade mais brilhante do Val di Noto.
Estendo o olhar para a constelação de luzes que brilha por toda a colina e peço apenas a continuidade deste lugar, assim como o vejo hoje, tranquilo e genuíno, uma estrela no interior duma ilha feita de terra e de mar, chamada Sicília. Enche-se o balão com a cor rubra do vinho e faz-se um brinde, que se cumpra a profecia feita por Tomasio di Lampedusa no seu livro, e que tudo o que possa vir a mudar nesta cidade, e nesta ilha, sirva apenas para mantê-la exactamente como ela é...
Chiara Civello é cantora de jazz emigrada em Nova Iorque. É também italiana e sobre uma ilha (Isola) no meio do Mediterrâneo escreveu estas palavras: ‘È il tuo ritratto sullo sfondo che s’illumina ed è la luce del tuo mondo che mi libera’ (É o teu retrato, sobre um fundo, que se ilumina e é a luz do teu mundo que me liberta). Penso na Sicília sempre que ouço Chiara cantar a sua 'Isola'... O retrato da ilha da terra e do mar é sem dúvida capaz de iluminar o olhar de todos quanto a vêem, e de libertar os seus sonhos da mesma forma.
Gostei muito!! muito bem escrita.. parabéns.. venham mais :-)
Carlos Marques em 2009-10-30 16:57:46





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Conheci uma parte da Ilha,Ragusa, e é um lugar fascinante, mágico e surpreendente.
Dani em 2010-07-27 16:32:06